
Alimentação
As baleias francas alimentam-se “filtrando” o alimento na
superfície, num comportamento que se assemelha ao arrasto superficial
de uma rede, em que o animal nada lentamente com a boca aberta, deixando
a água fluir por entre as cerdas expostas que capturam aí
os pequenos organismos que constituem seu alimento. A espécie é
seletiva, buscando principalmente pequenos copépodos (Calanus,
Microcalanus, Pseudocalanus, Oithoma e Metridia), além do krill Euphasia superba e Munida gregaria.
A
alimentação das baleias francas ocorre basicamente durante
o verão, nas águas próximas da Convergência
Antártica, sendo que há registros de concentrações
alimentares a Oeste da Península Antártica de dezembro a
abril, entre os 60º 40’ e os 64º 17’ de latitude
Sul (o registro mais austral conhecido) e nas proximidades das ilhas Geórgias
do Sul, estas aparentemente mais freqüentadas no final do verão
até abril. Observações realizadas por baleeiros japoneses
em cruzeiros de avistagens indicaram padrões de distribuição
sazonal de outubro a abril correspondentes a áreas situadas entre
a Convergência Subtropical e a Convergência Antártica,
“limites” fluidos que definem fronteiras entre zonas de características
oceanográficas e ecológicas bastante distintas. Há,
ainda, registros históricos de concentração sazonal
de verão de baleias francas nos Bancos do Brasil, elevações
do fundo marinho que se situam ao largo da costa do Sul do Brasil e onde
os baleeiros norte-americanos buscavam a espécie até o século
XIX. O comportamento de nadar com a boca aberta na superfície é
raramente observado nas áreas costeiras de reprodução,
inclusive em Santa Catarina, mas parece não estar associado à
alimentação, já que ocorre na ausência das
concentrações das espécies-presa; especula-se que
tal comportamento nas zonas mais quentes possa estar associado à
necessidade de termo-regulação, na qual o animal busca reduzir
sua temperatura corporal pela exposição do tecido ricamente
irrigado do céu da boca.

Reprodução
Ao findar-se o verão, as
baleias francas deixam as áreas de alimentação nas
latitudes mais frias e buscam as regiões costeiras onde se concentram
para o acasalamento, a parição e amamentação
dos filhotes nascidos no ano subseqüente à fecundação.
Na costa do Brasil, tal área deve ter atingido em períodos
históricos desde a divisa com o Uruguai no Arroio Chuí até
pelo menos a Baía de Todos os Santos. Atualmente, a área
de concentração restringe-se à Região Sul,
com registros de alguns indivíduos efetuando-se, regularmente,
ao longo do litoral Sudeste e em anos recentes no Banco
dos Abrolhos (BA) pela equipe de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte.
Outras áreas de concentração reprodutiva conhecidas
para a espécie no Atlântico Sul são a costa da Província
de Chubut, Argentina, em especial os golfos da Península Valdés;
a costa ocidental da África do Sul; o entorno das Ilhas Tristan
da Cunha e a NE das ilhas
Falkland/Malvinas.
As baleias francas são animais relativamente lentos, atingindo
cerca de 12 Km/h em deslocamento normal.
Estima-se que a gestação da espécie esteja em torno
dos 12 meses, que corresponderia à sazonalidade de sua migração
de retorno às áreas de reprodução, onde permanecem
no inverno e primavera. A reprodução é poliândrica,
ou seja, o acasalamento ocorre com diversos machos cortejando uma única
fêmea, que tenta evitar a cópula posicionando-se na superfície
com o ventre para cima, sendo que em águas brasileiras grupos de
acasalamento são comumente avistados ao longo da costa do Rio Grande
do Sul. Nos machos, os testículos (internos como em todos os cetáceos)
podem ser muito pequenos em indivíduos juvenis (1 a 2 Kg), mas
em adultos chegam a pesar cerca de 1.000 Kg - os maiores registrados no
reino animal, provável conseqüência evolutiva de um
regime de procriação em que o macho a deixar descendentes
será o que conseguir, literalmente, lavar o esperma de outros machos
competidores para fora do aparelho reprodutivo da fêmea, deixando
apenas o seu depositado. A maturidade sexual é alcançada
aproximadamente aos 6-7 anos e estima-se que a fêmea tenha o seu
primeiro filhote aos 8-9 anos. Os filhotes nascem normalmente entre junho
e dezembro, já com cerca de 5 metros de comprimento e um peso entre
4 e 5 toneladas; nas primeiras semanas de vida o filhote pode adquirir
cerca de 50 Kg/dia de peso, graças ao leite rico em gordura proporcionado
pela mãe. Pesquisas recentes realizadas na África do Sul
indicam que a taxa de crescimento médio dos filhotes do ano está
estimada em 2,8 centímetros/dia (+ 0,7 cm) e já na metade
de outubro do ano de nascimento os filhotes podem atingir a metade do
tamanho de suas mães. Em média, as fêmeas conhecidas
nas áreas de reprodução têm um filhote a cada
3 anos.
As
fêmeas e seus filhotes permanecem em zonas costeiras de pouca profundidade
até o final da temporada reprodutiva; na Península Valdés,
Argentina, as fêmeas acompanhadas de filhotes mantém-se preferencialmente
ao longo da isóbata de 5 metros, o que deve ter equivalência
no comportamento de pares mãe/filhote observados em Santa Catarina
mesmo no interior da faixa de ondas. Alguns filhotes passam todo o ano
seguinte ao nascimento na companhia da mãe, separando-se desta
somente no retorno à área de reprodução. Nas
primeiras semanas de vida, o filhote passa cerca de 90% do tempo no entorno
imediato da mãe, e apenas no final da temporada de inverno de seu
nascimento passam a distanciar-se mais desta, explorando de forma mais
independente o ambiente das proximidades; os filhotes de um ano, que retornam
com a mãe para as áreas de reprodução, desligam-se
dela nesta fase, com a mãe aparentemente tomando a iniciativa de
afastar-se do filhote que então já é funcionalmente
independente.
Na Península Valdés, fêmeas conhecidas por foto-identificação retornam regularmente às mesmas áreas, um fenômeno recorrente em diversas áreas de reprodução da espécie, e também na costa brasileira, fato comprovado recentemente pelas pesquisas realizadas pelo Projeto.

Aspectos comportamentais diversos
Os mergulhos mais demorados observados
na espécie estão em torno de 20 minutos, muito embora
quando de sua permanência nas áreas de reprodução
a freqüência de emersão seja muito maior, assim como
mais freqüente o repouso ou lenta movimentação à
superfície, principalmente na companhia do filhote. As velocidades
de deslocamento variam, embora estime-se que durante a migração
sazonal estejam entre 5 a 12Km/h.
As
baleias francas produzem sons registrados na faixa entre os 50 e 5000
Hertz e seu repertório acústico é composto por
oito padrões sonoros básicos, com diferentes funções
no contexto etológico da espécie, incluindo a comunicação
inter-indivíduos; embora ainda indecifrados no seu significado
particular, sabe-se que diferentes sons servem a distintos eventos de
interação entre os animais e entre estes e seu ambiente.
Usam sons na faixa dos 100 a 200Hz para comunicação de
longa distância ou, no caso de pares de mãe e filhote,
manter contato mesmo a distâncias menores. Tais sons podem atingir
intensidades de 170-187dB(re 1mPa). Outros sons complexos, de finalidade
ainda indefinida, são produzidos entre 50 e 1000Hz, e a sua emissão
é mais intensa quando os animais estão mais ativos. No
tocante à capacidade auditiva, é de se notar que as informações
referentes a misticetos como a baleia franca ainda são fragmentárias
e preliminares. Sabe-se, entretanto, que tais baleias são bastante
sensíveis a sons inferiores a 1kHz, mas podem ouvir freqüências
muito mais altas. É provável que possam não apenas
reconhecer-se entre si pelos sons que emitem, mas ainda que possam reconhecer
locais específicos do mar e da costa pelas qualidades específicas
da acústica física desses locais.

Longevidade
Como em todos os grandes cetáceos, não se sabe ao certo
a idade máxima alcançável pelas baleias francas.
Entretanto, a avançada idade a que podem chegar as espécies
da família Balaenidae é confirmada pelo achado de pontas
de arpões primitivos no corpo de cinco baleias Bowhead (Balaena
mysticetus) capturadas por esquimós do Alaska entre 1993, neste
último ano sendo encontradas duas pontas 1980 e de arpão
de pedra numa baleia macho de 16,7 metros de comprimento, capturada
próximo à localidade de Wainwright a 30 de maio de 1993.
Tais pontas de arpão não são mais utilizadas pelos
baleeiros aborígenes desde 1920, significando que a baleia de
Wainwright teria certamente mais de 73 anos e possivelmente cerca de
80 anos; não há razão plausível para supor
que as baleias francas austrais tenham longevidade menor. No Atlântico
Norte, vale mencionar, uma baleia franca boreal (Eubalaena glacialis)
identificada por fotografias em 1935 e novamente em 1992 comprovou uma
idade mínima de 62 anos.